quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Enredos para 2013

Proposta de carro alegórico e fantasias para o ano que vem
Não existe Carnaval sem desfiles de escola de samba, e, com eles, seus fabulosos enredos que demonstram todo o talento do carnavalesco de tirar leite de pedra, e vice-versa, homenageando desde políticos corruptos a mitos totalmente desconhecidos e irrelevantes, passando por itens da geladeira, como o iogurte. Por isso, segue aqui uma lista de enredos possíveis, que ainda podem "levantar o astral da Sapucaí":

"Supervia: de Cabral a Cabral, o tráfico negreiro ainda está aí"
"Mulheres Ricas, a epopeia do botox até o cérebro, e o dinheiro só não compra neurônios na Oscar Freire"
"Silicone, o herói brasileiro: do deserto cerebral do BBB para a Sapucaí"
"Bueiro no Rio de Janeiro: o disco voador na mitologia carioca"
"De Coisinha de Jesus a Michel Teló, a música brasileira evolui (?)"
"Chuva, uma surpresa todos os anos no verão brasileiro"
"Faustão e o milagre da química: transformando domingo em bosta há mais de 20 anos"
"Jornalismo: da promiscuidade moleque à industria do jabá"
"Ônibus no Brasil: transportando gado há quase um século"
"Viva Marte e suas crateras: eu ando pelas ruas do Brasil"
"Saneamento básico e educação: fantasia de um mundo distante"
"Metrô no Brasil: sonho ou fantasia"
"Fígado: o herói do Carnaval" (Abre-alas: carro em homenagem à Quarta-Feira de Cinzas)
"Cerveja, churrasco e coxinha de frango: fonte da vida"
"Galvão Bueno e sua escola: do futebol ao Carnaval, o importante é falar bobagem"
"Guimba, guimba: do peteleco mágico na bituca ao câncer de pulmão"
"Alice no País das UPPs"
"Facebook: sorria, você pode achar que é idolatrado(a)"
"Carlos Nascimento e a história da inteligência do povo brasileiro"

Por fim, o ranking (totalmente monocrático e aleatório) dos piores enredos da história do carnaval carioca (se São Paulo entrar na competição, fica desleal):
1º) Porto da Pedra 2012: Iogurte
2º) Qualquer uma sobre lendas desconhecidas da Amazônia (normalmente, da Beija-flor)
3º) Caprichosos 2001: Goiás
4º) Mangueira 2005: Petrobras
5º) Vila Isabel 2011: Cabelo (Pantene)
6º) Salgueiro 2007: Candaces
7º) Qualquer uma sobre lendas da África desconhecidas no Brasil
8º) Unidos da Tijuca 2010: Segredo
9º) Portela 2010: Internet
10º) Império Serrano 1997: Beto Carrero*
11º) Mangueira 1989: Chico Recarey*
12º) União da Ilha 2012: Inglaterra
13º) Qualquer enredo vendido a empresas ou governos (com menção honrosa para a Mangueira, que, em 2008, deixou de homenagear o centenário de Cartola e decidiu celebrar o frevo, também com 100 anos, graças a um patrocínio da prefeitura do Recife)

*Inestimáveis contribuições da leitora Cíntia Cardoso-Delautre. (Sim, essa lista pode e será atualizada mediante eventuais contribuições e flashes de memória do autor.)

Outros posts carnavalescos:
Manchetes de Carnaval
Manifesto Carnavalesco Paulistano

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Manchetes de Carnaval

Atendendo a pedidos, algumas manchetes que estarão nos jornais e sites, e frases que serão ditas por narradores e repórteres de TV, nos próximos cinco dias, para você não precisar (mesmo) ler jornal, ou ligar a televisão, no período:

"[Nome da escola de samba] enche avenida de cor e alegria"
"O Carnaval na Bahia já começou há uma [semana, lua, década]!"
"Olha a Mangueira entrando aí!"
"O bloco [nome do bloco] arrasta a multidão pela Zona Sul do Rio!"
"Nem mesmo o sol quente (!) desanimou esse grupo de [jovens, velhos, vesgos] que veio de [Guaxupé, Asa Branca, ou qualquer nome de cidade que pareça pitoresco na TV]!"
"[Escola de samba] levanta a avenida"
"Dez! Nota dez!"
"São foliões de todas as idades no [nome do bloco]!"
"Estamos aqui com a Viviane Araújo no desfile da [QUALQUER escola de samba] em São Paulo..."
"Centenas de blocos animam os foliões pelas ruas do Rio"
"Todo mundo com o samba-enredo na ponta da língua."
"Essa bateria do mestre [nome]zinho é mesmo um arraso!"
"E [nome da fulana terminado em "e"] mostra o samba no pé!"
"É folia que não tem hora para acabar!"
"Doações de sangue despencam durante o Carnaval"
"Mas a música do carnaval aqui é o frevo!" (Como se alguém achasse que samba ou axé fossem os ritmos de Olinda e Recife.)
"A grande expectativa é pelos desfiles deste(a) [sexta, sábado, domingo, apuração de quarta-feira]!"
"Qual é a emoção de entrar na avenida?"
"E o coração tá preparado?"
"Como repor as energias nesses dias de folia?"
"Samba pra gente, [fulana, sicrana]!"
"Olha a paradinha da bateria!"
"Sorriso no rosto da comunidade depois de um ano de trabalho!"
"Estamos aqui com a Viviane Araújo no desfile da [QUALQUER escola de samba] no Rio..."
"Nossa repórter está no camarote da cervejaria (que todo mundo sabe o nome) e falou com a [ex-namorada de jogador de futebol, ex-BBB, atualmente moradora da fazenda só]."
"[Escola de samba] é Estandarte de Ouro"
"Carnaval não tem idade!" (Mostra criança fantasiada.)
"Essa é a homenagem da [escola de samba] ao [artista, político, desocupado, estado patrocinador]!"
"E a festa não acaba na Quarta-Feira de Cinzas!"
"Prefeito entrega a chave da cidade para o Rei Momo" (Por acaso, alguém já viu o Rei Momo devolver a chave na Quarta-Feira de Cinzas? Depois, reclamam da falta de segurança da cidade.)
"Esse é o charme da rainha de bateria da [escola de samba]!"
"O grande sucesso deste Carnaval foi mesmo..." (Mostra povo dançando Michel Teló.)
"E a emoção da torcida na quadra, acompanhando ponto a ponto!"
"O Galo da Madrugada abre oficialmente o Carnaval em Recife!"
"E você? Já beijou muito?"
"Quem disse que não tem Carnaval em [qualquer cidade que todo mundo sabe que tem carnaval]?"
"[Nome de ex-BBB ou jogador de futebol] mostra que também é bom de passarela!"
"Depois de dias de alegria e descanso, caos nos aeroportos"
"Engarrafamento recorde dificulta volta do paulistano para casa"

Outros posts carnavalescos:
Enredos para 2013
Manifesto Carnavalesco Paulistano

Outros posts jornalísticos:
Jornalismo, ano 2035
Ser jornalista de economia é...
Como jornais, sites, revistas e a TV noticiarão o fim do mundo
Beijinho no Chefe ("Beijinho no Ombro" para jornalistas)
Pautas para a Jornada Mundial da Juventude
Jornalismo como ele é
Máximas e mínimas do jornalismo
Chavões do jornalismo
"Eu sou feliz sendo jornalista"
Dia de Jornalista
Finados jornalísticos
Manchetes de Carnaval
Capas de fim de ano: o que querem realmente dizer
Ai se eu escrevo: Michel Teló para Jornalistas
Diálogos que adoraríamos ver na TV
Jornalista de Novela

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Manifesto Carnavalesco Paulistano

Sim, você leu certo: eu estou falando de Carnaval em São Paulo, mais especificamente os blocos de rua paulistanos, uma experiência antropológica. Aos poucos, a capital paulista começa a se transformar na direção dessa tradição do país com que faz fronteira. Do jeito que está hoje, lembra o carnaval de rua carioca quando este estava renascendo e era algo menos caótico (e eu tinha, portanto, dez anos a menos também). O ideal seria poder dizer "congela!" e deixar as coisas como estão hoje, mas quem conhece a capital paulista ou Carnaval sabe que isso é impossível. (Além de ser uma bobeira enorme achar que "congela" é palavra mágica.) Contudo, a identidade de uma cidade tão cheia de personalidade não se converte assim tão fácil. Portanto, eis uma lista (sim, eu adoro listas) de coisas que fazem o Carnaval paulistano especial e por que ele pode dar certo (ou não):

1. Tal como no Rio, o sotaque paulistano predomina no bloco.
2. Os homens usam camisa. (A contrapartida é que as mulheres não estão só de biquíni.)
3. Alguns estão até de camisa polo, coisa que só em São Paulo é possível durante o Carnaval. (Afinal, não era para sair com uma roupa mais à vontade do que a usual?) O pior é descobrir que o sujeito de camisa polo pode ser carioca (muitos aproveitam para sair do armário e se assumir "coxinha" quando se mudam para SP).
4. Agora, se o indivíduo estiver de camisa social (ainda que aberta e com uma camiseta por baixo para dar aquele "ar despojado"), com certeza, é paulistano.
5. Os pitboys ainda não aprenderam a chegar a São Paulo.
6. Paulistano é pontual, chega cedo no bloco, no horário divulgado, pois não tem tempo a perder.
7. As mulheres estão maquiadas, sem que isso faça parte necessariamente de uma fantasia
8. Hino do Flamengo vira marchinha.
9. Não toca axé, nem "forró universitário", no meio do bloco.
10. Você pode encontrar a Pitty no meio do bloco.
11. É possível chegar perto do carro de som e circular pelo bloco sem pegar uma doença transmitida pela pele. Eu mesmo andei mais de 15 metros sem encostar em ninguém. Afinal, a maior parte das pessoas que moram em São Paulo e gostam de Carnaval está no Rio ou em Salvador. (E, mesmo assim, sobra gente suficiente para montar uma meia-dúzia de blocos.)
12. Não é necessário contratar carro-pipa para jogar água na galera. Sempre vai chover no meio do bloco. Umas três vezes. Ou uma só, que vai durar o bloco inteiro.
13. Ninguém estranha ouvir o sotaque carioca no meio do bloco.
14. Acaba com aquela cantada/abordagem idiota do "você veio de São Paulo?".
15. A fila do banheiro dos homens é maior do que a das mulheres (não é exatamente uma vantagem, mas mostra que, ao menos por enquanto, mesmo os cariocas ainda têm alguma vergonha de urinar na rua em São Paulo).
16. Você pode encontrar aquele amigo de infância do Rio no meio do bloco.
17. É o único lugar do mundo onde você vai ouvir "vai, Curíntia!" no meio do Carnaval.
18. Paulistano já está acostumado a ficar parado no trânsito. O engarrafamento enquanto se espera o bloco passar não vai fazer muita diferença. Mas a verdade é que os blocos ainda não causam esse estrago todo. É até difícil, às vezes, saber onde ele está, porque ele acaba engolido pela cidade e é ignorado pela maior parte das pessoas que nela estão (outra vantagem). Aliás, não se assuste se você for o(a) único(a) idiota de fantasia no busão.
19. Não tem aquela quantidade absurda de vendedores ambulantes. (Tá. Em algum momento, você vai reclamar disso, pois vai ter que cruzar o bloco para comprar bebida e não vai achar aquela Itaipava a R$ 2.)
20. As chances são maiores de a cerveja estar gelada, já que não faz os 57 graus à sombra (há sombra?) dos blocos do Rio e (ainda) tem menos gente.
21. Apesar cair água do céu copiosamente todos os dias nessa época do ano, as pessoas ainda se surpreendem e procuram abrigo da chuva nos lugares menos espaçosos. (Se o bloco estiver começando, claro. Depois, ninguém dá mais a mínima para ela.)

Pessoas fugindo da chuva no Baixo Augusta, para baixo de um mini-toldo
22. As pessoas levam guarda-chuva e não é para dançar frevo.
23. As chances são maiores de a cerveja não estar "choca". Como não tem bloco todo dia, o cara não vai guardar a cerveja desgelada para o dia seguinte. (E vai acabar mesmo.)
24. Tem japonês (e japonesa) sambando. (Possivelmente, é ele que vai estar de camisa social.)
25. Os batedores de carteiras ainda não descobriram o Carnaval de São Paulo.
26. As pseudocelebridades também não. Então, não tem aqueles cercadinhos para escolhidos.
27. Você consegue ouvir a música.
28. O cara vestido de mulher realmente quer dizer isso. As duas mulheres se beijando também. (Não, elas não querem só chamar sua atenção, bonitão.)
29. Tem fila para comprar cerveja. E as pessoas respeitam. (Paulistano adora fila. Claro que, se você for carioca, sempre vai dar um jeito de passar na frente.)
30. Paulistano leva Carnaval (e tudo) muito a sério: vai de carro e tênis, e os seguranças usam terno. Sério.
31. Você não corre risco de ter uma insolação.
32. Você não tem trabalho para decorar a marchinha "deste ano". É sempre a mesma todos os anos.
33. As pessoas ainda acham graça quando você grita "toca Raul!".
34. As músicas, fora a eventual marchinha oficial, são as mesmas do Rio. Alguns blocos também. (Alô, Fogo e Paixão! Alô, Sargento Pimenta! Fica a dica.) No mais, você tira onda de local cantando "Trem das Onze". E ainda pode conhecer alguém do Jaçanã. (Sim, o bairro, na verdade um distrito, existe.)
35. Os banheiros químicos dão conta da demanda. Ainda.
36. Você pode parecer original no Facebook.
37. Como São Paulo não tem praia, o bloco vira uma alternativa para você não precisar passar os cinco dias de Momo comendo (e entendendo por que ele ficou daquele tamanho) e assistindo pela TV o carnaval da Bahia, de Recife e do Rio, além da reprise-compacta-versão-melhores-momentos-agora-com-a-letra-e-sem-nudez do desfile das escolas de samba, com os comentários sempre pertinentes do Luís Roberto e do Cléber Machado, e os "big brothers" na Sapucaí. (Ah, sim, e você também evita o Faustão e a Ana Maria Braga.)
38. Hmmmmmm... Pensando bem, até que dá para passar um Monobloco ali na Marginal Pinheiros, ou um Simpatia ali no Minhocão, hein? No mais, não espalha, mas a Vila Madalena é a cara do carnaval de rua brasileiro.
39. E, por fim, quando a folia acaba, você não precisa pegar a Ponte Aérea, enfrentar os aeroportos brasileiros, a Dutra ou viajar de ressaca.
40. Se, depois de toda essa embasada argumentação, você não tiver ido pro bloco ainda, dá para entender: o Carnaval de São Paulo é ótimo também para quem odeia Carnaval. Se você tem mais de 30 e espírito de 70, como um bom morador típico da cidade, o melhor desse período é a tranquilidade que fica nas ruas, e a inacreditável ausência de engarrafamento, durante os dias de Momo propriamente ditos. Só São Paulo para te fazer valorizar uma coisa dessas. Aliás, a capital paulista deve reunir a maior concentração de gente que odeia Carnaval. E também a maior quantidade de gente que adora. São Paulo reúne a maior concentração de qualquer coisa.

É claro que todas essas vantagens acabam quando o resto do mundo (inclusive São Paulo) descobrir o carnaval de rua da cidade. Basta o Jornal Nacional fazer uma matéria a respeito, ou o Blog do Jorge publicar esse post, e, ano que vem, todo mundo vai querer ficar na cidade.

Esse post é sobre o carnaval de rua de São Paulo. Para as escolas de samba, não tem jeito mesmo, elas não têm nada a ver com a cidade. A prova disso é a confusão que os paulistanos fazem entre agremiações e torcidas de futebol. Pior: torcidas organizadas, praga que não deveria existir nem no esporte, do jeito como funcionam hoje. A única justificativa para o desfile oficial ainda existir em SP deve ser o apego que o paulistano tem com o engarrafamento, para ficar parado por horas na Marginal Tietê antes de chegar ao Anhembi. É o mesmo e verdadeiro motivo que leva o morador de São Paulo a pegar a estrada no Carnaval.

Mais sobre as diferenças entre Rio e São Paulo:
Manual de Adaptação: Rio x São Paulo
Dicionário Rio x São Paulo de Gírias e Afins
Como seriam Rio e SP se fossem iguais à publicidade e à TV
E se a Avenida Brasil da novela fosse a de SP?
Outros posts carnavalescos:
Enredos para 2013
Manchetes de Carnaval

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Como parecer (e até ser) um executivo de sucesso

Ou "coisas que você não vai ler na Você SA":

"O jargão é meu pastor e nunca me faltará." Jamais se esqueça deste mantra. Quando não tiver o que dizer, fale coisas como: "a empresa está em busca de sinergias dentro da sua cadeia produtiva, para que a reprecificação dos ativos não impacte na sustentabilidade empresarial da sua relação com os diversos stakeholders." Não quer dizer nada (na verdade, a empresa está quase quebrada), mas ninguém questionará.

Para valorizar aquele seu MBA no exterior, use sempre palavras em inglês corporativo, mesmo quando (principalmente se) tiver equivalentes em português e todos os interlocutores forem brasileiros, ou falarem português. Diga que você precisa de um overview do briefing, para poder fazer um draft do layout para entregar ao prospect a tempo de ainda marcar um conference call e fazer uma review, que faz parte da sua checklist. Se estiver tired, bored ou stressed, peça para tirar um break ou um day off, whatever... No fim, peça sempre um feedback e verifique se o benchmark foi atingido. Este blogueiro mesmo escreve posts e não postagens, pois quer aparecer nos trending topics. Exagere na pronúncia: nada de falar "tuíter", diga "tuírerr", quando se referir à rede social.

Sempre que um subordinado chegar com uma ideia, interrompa-o e sugira algo que não tem nada a ver sobre qualquer outro assunto, como quem diz "eu queria mesmo falar com você sobre isso". Você vai passar a impressão de um chefe envolvido com os problemas e democrático, quando, na verdade, só continua impondo as suas ideias, por mais bizarras que sejam.

Interrompa o trabalho dos seus subordinados todos os dias para dar orientações sobre a função que ele já desempenha diariamente, como se fossem uma novidade. Isso fará todos (inclusive ele) acharem que só você domina aquele trabalho medíocre, que você é fundamental para comandar sua equipe, além de um grande líder, e evitará que seu subalterno se sinta seguro em sua função.

Fale com convicção o que quer que seja, ainda que seja um assunto sobre o qual você não tem qualquer informação. Aparente conhecimento é poder.

Vá até a impressora na hora em que o seu subordinado tiver acabado de mandar imprimir aquela passagem para Guarapari na Semana Santa, chegue na impressora antes dele e faça cara de cumplicidade, estilo chefe legal (ou: "eu sei que você usa os recursos da empresa para fins pessoais"). Isso garantirá a você extrair algumas horas-extras não remuneradas dele.

Almoce na sua mesa de trabalho. Você não veio ao mundo para dar tranquilidade a ninguém. Não vai ser na sua hora de almoço que você vai descer para dar uma hora de descanso aos seus subordinados para eles poderem entrar no Facebook ou mandarem e-mails pessoais em paz.

Pergunte ao seu subordinado se ele está bem sempre que ele ficar mais de cinco minutos longe da mesa dele. Ele terá certeza de que você está controlando tudo o que ele faz (e está), mas você ainda passará a imagem de que está preocupado com a vida pessoal da equipe.

Leve seu(s) filho(s) um dia no trabalho. (Se não tiver um, leve o cachorro.) Será divertido ver aquele monte de gente medíocre, de 30 a 40 anos de idade e abaixo de você, puxando o saco e querendo agradar um moleque sem educação de menos de 10 anos de idade.

Inventar palavras em inglês ou aportuguesar as estrangeiras, mesmo quando elas já existem em português, também está valendo. Diga sempre que você vai "estartar" alguma coisa, não simplesmente "começar", mesmo que esteja falando do seu almoço, e que você "suporta" tal ideia, quando você deveria dizer apenas que apoia ou concorda. Mas, para valorizar seu MBA, diga que você se viciou nessas expressões. Para parecer que você se importa com a compreensão, faça sinal de "aspas" no ar com os dedos da mão a cada vez que falar em itálico.

Dê incertas na mesa dos seus subalternos. Os melhores momentos são quando ele estiver sorrindo para a tela do computador. Provavelmente, ele acabou de ler algo engraçado no Facebook (ou no Blog do Jorge). O constrangimento dele fará sua semana valer a pena.

Ocupe seus subordinados com serviços medíocres, sempre como se fossem "missões" importantíssimas para a empresa. Mantê-los ocupados e falsamente valorizados diminui riscos e te dará a sensação de segurança no cargo de que você tanto precisa.

Não esqueça: gritar está fora de moda (além de render processos). Falar baixinho é o novo terno (ou tailleur) do mundo corporativo. A humilhação discreta e diária (e sem registros) é muito mais poderosa.

Não seja um chefe antiquado. Nada de falar "recursos humanos", "assessoria de imprensa". "Departamento pessoal", ou "depê", então, nem pensar. É atestado de pobreza (e de velhice). O último, na verdade penúltimo, grito do alpinismo social é falar também as siglas em inglês, portanto PR ("pí-árr"), HR ("êitch-árr") para RH, e por aí vai. O mesmo vale para e-mails: encaminhe mensagens dos superiores sem acrescentar nada, apenas um "fyi" no subject. Se for escrever algo longo (cinco palavras), comece com "btw" e termine com "asap".

Finja cordialidade sempre. Assim, você poderá fazer aquele pedido absurdo a cinco minutos do horário de saída do seu funcionário e dizer "eu não queria te pedir isso a essa hora, mas estão me cobrando". (A falsa cumplicidade a seu serviço, mais uma vez.)

Adicione seus subordinados no Facebook.

Marque reuniões para não resolver nada. Uma por semana, no mínimo. E pelo menos um conference call (inglês, lembra?) por dia com a mesma finalidade.

Na dúvida de quais palavras usar? Escolha uma de cada coluna e fale na ordem.

Apareça informal (bermuda cáqui e camisa polo, pois é assim que chefe se veste informalmente) sem querer no bar que os seus subordinados costumam frequentar de forma que seja impossível eles não se sentirem obrigados a te convidar para se juntar a eles.

Faça comentários sobre a roupa dos seus subordinados. Não deixe claro se é uma crítica ou um elogio (até porque o primeiro poderia ser considerado assédio moral e o segundo, sexual, e nós não queremos que você seja processado por práticas tão antiquadas). Use referências vagas, como "hmmmmm... Camisa azul, hein?". Isso ajudará a manter o clima de insegurança (para os outros) no ambiente.

Sempre diga ao seu subordinado o que você está fazendo, num tom supostamente educativo, mas sempre deixando claro que você só está fazendo aquilo porque ele não fez.

Passe o dia no telefone, e dê gargalhadas altas de vez em quando. Além de te tornar inacessível, deixará os outros loucos, fará parecer para os seus superiores que você é um grande gestor, comandante do melhor clima de trabalho da empresa. Para os subordinados, bem, quem liga para eles? Quando um deles chegar perto, para tentar participar do assunto, feche a cara.

Use sapatos silenciosos. Eles serão úteis quando você for chegar discretamente por trás do seu subordinado e ele(a) estiver falando com a(o) namorada(o). A vergonha e a culpa do coitado te permitirão pedir (com cara de fofinho, claro) que ele estenda as 12 horas de trabalho diárias dele.

Mantenha o ar misterioso ao seu redor. Ser indecifrável passará a ideia de que você tem um "algo a mais" que te fez chegar lá.

Comente algum post recente de algum dos seus subordinados no Facebook ou no Twitter para todos na segunda-feira. Isso dará certeza de que você passou o fim de semana vasculhando a vida dele.

No caso de uma empresa que não separa os eleitos como você em salas de vidro, ou no andar que corresponda à sua casta, mexa-se na cadeira (escolha uma bem barulhenta) repentinamente e várias vezes ao dia. Será engraçado ver seus funcionários criando tiques nervosos ou aprendendo a usar o Alt+Tab, achando que você está indo falar com eles.

Demita alguém que todos julguem ser um bom funcionário, sem explicar o motivo a ele ou aos demais (atribua sempre a uma "readequação dos quadros", ou a "desempenho", de uma forma subjetiva, ou algo que o valha). A insegurança e a baixa autoestima de quem está abaixo de você são as chaves da manutenção do seu poder.

Pare o serviço de todos para comentar sobre um filme que você viu (ou não, mas finja que viu), e sobre sua última viagem para a Costa do Sauípe, ou o último fim de semana em Nova York, como se todos fossem íntimos dos lugares que você visita (ou diz que visita).

Quando um subordinado falar alguma coisa, comece a falar por cima com cara de "você está falando uma enorme besteira" e diga EXATAMENTE a mesma coisa que ele estava falando.

Cargos? Só em inglês também. Afinal, você não quer ser "presidente", ou simplesmente "dono" do botequim, ou da papelaria da esquina. Você é CEO (pronuncia-se "siôu"), você não tem contador, mas "siéfôu" (CFO) e um dia ainda vai fazer um "ái-pi-ôu" (IPO), não simplesmente "abrir capital".

Refira-se aos chefes supremos da empresa pelo primeiro nome ou um apelido. Vai fazer parecer que você é íntimo até de Deus.

Peça algo ao seu subordinado assim que ele chegar (no começo do dia e após a hora de almoço), de preferência sem dar "bom dia". A estratégia é não deixar ninguém abaixo de você ter tempo para pensar, respirar ou criar, lembra? E sempre passar a impressão de que os outros não estão fazendo nada.

Deixe espalhados na sua mesa cartões de outros "CEOs" (cargos em inglês, lembra?). (Se não tiver esses cartões, imprima alguns, falsifique.) Todos vão achar que, além de importante, autoritário e escroque, você é bem relacionado.

Sempre que pedir algo, comece com um "você está ocupado(a)?". Passará sempre duas impressões importantes. A primeira é de que você se importa. E a segunda, e mais importante, é a de que ninguém além de você faz nada na empresa. Faça parecer que já era para ele(a) ter adivinhado e ter te entregue o que você pediu.

Quando alguém se aproximar para perguntar ou dizer alguma coisa, finja que não está ouvindo, mexa no Blackberry (ou no iPhone), continue o que você estava fazendo até a pessoa (?) chegar, ou comece a arrumar a mesa. Quando acidentalmente seus olhos se cruzarem com os do interlocutor, faça cara de que não está dando muita atenção. E, claro, depois fale algo que não tenha qualquer relação com o assunto.

No mais, nunca se esqueça: se tudo mais falhar, a sua empresa não quebrou ou faliu, só está passando por uma "reestruturação".

Fonte: Revista EU MESMO LTDA.

Outras edições da Tu Mermo Ltda.:
Traduzindo o mundo corporativo
Como se tornar o empregado do mês
O que o seu chefe (não) deve entender... 
Prezado RH, (ou: Seção de Cartas)
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Profissões sem desemprego

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Selo Oversharing

Cansado(a) de saber detalhes da vida amorosa dos outros sem ter solicitado? Já sabe com que frequência os filhos das suas amigas de trabalho vão ao banheiro? Odeia saber quem fez check-in onde, só para dizer que é cool e que frequenta lugares descolados? Acha um verdadeiro idiota o sujeito que resolveu falar mal do chefe no Facebook e no Twitter? Seus problemas acabaram! Copie e cole essa imagem (ou link: goo.gl/FwlBL) no post do sujeito que fala demais. Selo Oversharing: para quem usa Facebook como divã.


Contra outras idiotices da internet:
Hatebook, a rede antissocial
Aviso de Imbecilidade
Defina "rede social"
A vida vista pelo Instagram
Defina "vida"
Drama para a família brasileira