quinta-feira, 4 de abril de 2013

Chavões do Jornalismo

Para você ver que existe "capa de revista" pior do que
a que te mandaram fazer, e não reclamar mais da vida
E aí vem mais um Dia do Jornalista! É no próximo dia 7! Sim, domingo. Afinal, jornalista tem sorte e ninguém vai te encontrar para te dar parabéns. (Não que você fosse folgar mesmo...) E, de presente para você, amigo jornalista, segue uma uma modesta lista de pautas que não dizem, nem informam, nada novo, mas que podem te socorrer numa hora de desespero (ou seja, todo dia) ou quando você quiser ir embora logo para a festa-jabá de Ano Novo daquela operadora de telefonia. Afinal, nada é mais clichê do que texto que usa efeméride como gancho. Porque aqui o dia é do jornalista, mas quem ganha o presente é você!

Muletas para te derrubar:
"Inúmeros" e "infinitos", para qualquer dado que não foi apurado direito (sempre funciona).

"Idoso de 90 anos" (um dia, ainda entrevistam um jovem com essa idade).

"Cada vez mais", "a cada dia que passa", "cada vez mais frequente", "cada vez mais gente", e "cada vez menos" jornalismo, para parecer que existe algum critério estatístico. Todo mundo um dia já usou. Se não usou, é cada vez mais provável que um dia vá usar. Outra variável possível é "nunca se fez tanto [tal coisa]".

"Uma das coisas mais" irritantes é o uso indiscriminado de "um dos maiores", "uma das mais importantes", "uma das melhores", "uma das mais importantes", para parecer que o jornalista é "um dos maiores entendidos" no assunto.

"Segundo especialistas", cujos nomes nunca são revelados, claro. Pode te ajudar a dar credibilidade para qualquer tese que tenha saído da sua cabeça.

"Gente bonita" e "cidadão médio". Gostaria muito de saber qual o júri que define esses critérios.

"Bandido de classe média": provavelmente, o mais preconceituoso deles.

Fim de ano:
"Muita gente já veio para ficar" e "nessa última manhã do ano", às 9h da manhã do dia 31 de dezembro na praia de Copacabana.

"Um milhão de pessoas são esperadas (em Copacabana/na Avenida Paulista/na Corrida de São Silvestre!"

"Copacabana está quase pronta para o fim do ano", em qualquer dia a partir de 26 de dezembro, e que é invariavelmente mentira.

"Show de explosão e cores (ou: luz e alegria)!"

"Copacabana bate um novo recorde de minutos de fogos."

Qualquer previsão furada para o ano seguinte.

"Já é Ano Novo na Austrália (ou qualquer país da Ásia)!"

Matérias sobre "Adiantamento do 13º: vale a pena?"

"Engarrafamento bate recorde em São Paulo", na véspera de um feriado ou em qualquer dia do ano.

"Use o 13º para quitar dívidas", ou "como investir o 13º", a partir de novembro.

"A festa não tem hora para acabar!"

Eleições:
Chamar de "festa da democracia".

Urnas chegando de barco em comunidades ribeirinhas.

"X" urnas deram defeito e precisaram ser trocadas.

Matérias sobre o "esforço" do brasileiro em ir votar e "exercer seu direito de cidadão", pegando barcos, subindo escadas com cadeiras de rodas (e ignoram completamente que voto no Brasil é obrigatório).

Estações do ano:
Matérias, durante o horário de verão, sobre a dificuldade de acordar "mais cedo" versus a alegria de voltar para casa com o dia claro e ainda pegar o fim de praia (se estiver no Rio).

Matérias sobre a economia de energia que será feita (para alguém, mas não para o consumidor, que vai gastar mais com ar-condicionado de qualquer forma), explicando o motivo para o horário de verão.

Pautas com trocadilhos, como "alta das temperaturas esquenta venda de sorvetes, ventiladores e ar-condicionado". No inverno, valem coisas equivalentes, como "com as temperaturas em queda, são as vendas de roupas de frio que ficam aquecidas".

Vestibular:
Matéria na véspera, falando sobre o nervosismo quanto à prova que "pode decidir o seu futuro", com estudantes estudando até a última hora versus os que vão relaxar depois de estudarem o ano todo.

Matéria com pessoa que chegou atrasada e não conseguiu entrar, chorando, dizendo que estudou o ano inteiro e é um absurdo perder a prova por causa do trânsito e da falta de estrutura para chegar.

Economia:
O "dragão" e o "vilão" da inflação (com frequência, o maldito chuchu, mas, hoje, o tomate).

"A grande aposta (...)", em qualquer matéria de Economia.

"Sustentabilidade", "economia verde", "desenvolvimento sustentável", "legado", palavras que deveriam ser banidas do jornalismo pós-Rio+20 e pré-Copa de 2014, já que não querem dizer nada mesmo.

Matéria sobre quanto o prêmio da Mega-Sena acumulada renderia por mês na poupança.

Protestos (transformadas em matérias sobre trânsito):
"Cenário de guerra", "cenas de batalha", "o caos tomou conta", "maioria pacífica" e "gritaram palavras de ordem".

Como narrar a desgraça alheia:
Fulano "luta pela vida" ou "está entre a vida e a morte", quando o sujeito está quase morrendo. Deve ser mesmo uma fonte muito boa desse lugar onde as pessoas ficam enquanto se decidem se morrem ou sobrevivem.

"Aumenta o número de mortos", para qualquer desastre natural ou ataque terrorista, como se fosse possível o número de mortos diminuir.

"Não foi só de festa", em qualquer matéria para falar de acidentes e desgraças depois de feriados ou finais de campeonatos.

"O povo dá seu último adeus a Fulano de Tal."

"Fulano perdeu tudo em [naufrágio, enchente, incêndio, terremoto, vulcão, nevasca, diarreia], só não perdeu a esperança", normalmente em matérias na TV.

"O que era para ser um passeio/uma aventura acabou em tragédia", para falar de acidentes de avião, na estrada, ou a pé, incluindo brasileiros que resolvem escalar montanhas perigosas mundo afora e se ferram.

"No lugar do medo, a esperança", sobre fins de conflitos ou a instalação de UPPs no Rio (nesse caso, seguido pela imagem da bandeira instalada na comunidade ocupada).

"Veio a óbito", como eufemismo para morte.

Jornalismo esportivo:
Começar qualquer matéria com o Bruno Senna falando do tio, Ayrton Senna. Ou entrevista com o Bruninho, do vôlei, perguntando o que o pai, Bernardinho, acha sobre alguma coisa.

"Dentro e fora do campo", para falar da rivalidade entre times e torcidas.

Uma frase solta, sem qualquer pergunta elaborada, enfia uma interrogação no fim, e mete o microfone na cara do jogador. Exemplos: "Três a zero, hein?", "Empate, hein?", "Jogo duro, hein?", "Noite quente, hein?", "E o Flamengo?"

Páscoa:
Reportagens sobre a alta do preço do peixe na Semana Santa.

"Como fazer ovos de Páscoa em casa e ganhar um dinheirinho extra."

Matérias sobre o aumento dos preços dos ovos de Páscoa, seguida de uma coordenada sobre as diferenças de valores entre os diversos supermercados, que "podem passar de 100%", e "como o consumidor pode se proteger".

Reportagem sobre dieta (se possível, com algum novo e "revolucionário" método, mas não é essencial) na segunda-feira seguinte.

Dias das Crianças, dos Namorados, das Mães e dos Pais:
Matéria sobre correria "de última hora" para comprar o presente na véspera.

"Consumidor deve pesquisar, pois o preço do(a) [brinquedo/batedeira/perfume/vibrador] pode variar até X% de uma loja para outra!"

Reportagem, sempre com personagens, mostrando gente que levou o suposto homenageado para escolher o próprio presente, ou a mulher levando os filhos para comprar o presente do Dia dos Pais para o marido.

Nova geografia:
"Cidade maravilhosa" para se referir ao Rio.

"Velho Chico" em qualquer menção ao Rio São Francisco.

Natal, sempre a melhor época do ano para um chavão:
Matérias sobre empregos temporários, já a partir de setembro, sem esquecer daquele personagem que começou como temporário e foi efetivado em anos anteriores. Um dia, para furar a concorrência, ainda vai ter gente fazendo essa matéria em março, porque, em janeiro e fevereiro, já (ou "ainda") tem gente fazendo a mesma "reportagem" sobre os temporários que foram efetivados.

Matéria sobre a troca dos presentes de Natal no dia 26 de dezembro.

"Vendas de Natal devem crescer 10% este ano", sempre 10%.

Matérias sobre os "maridódromos", sempre "uma novidade deste ano", áreas reservadas nos shoppings para o inútil maridão ficar aguardando a mulherzinha fazer as compras, com perguntas sexistas do tipo "ela vai às compras, e você fica só esperando para pagar a conta, né?".

A alta dos preços dos importados da cesta de Natal.

No dia 24 de dezembro, uma supermatéria direto de algum shopping mostrando as compras de última hora.

Sem esquecer, é claro, da matéria ensinando a fazer guirlandas e enfeites natalinos.

E "o que fazer com as sobras da ceia".

Outros posts jornalísticos:
"Beijinho no Ombro" para jornalistas
Eu tô no jornal ("Então, é Natal" para jornalistas)
Como jornais, sites, revistas e a TV noticiarão o fim do mundo
Jornalismo como ele é
Máximas e mínimas do jornalismo
Dia de Jornalista
Manchetes de Carnaval
Capas de fim de ano: o que querem realmente dizer
Ai se eu escrevo: Michel Teló para Jornalistas
Diálogos que adoraríamos ver na TV
Jornalista de Novela

Outras homenagens:
Feliz Dia Internacional da Mulher!
Feliz Natal, Rio! Feliz Natal, São Paulo!
Feliz Dia da República!
Feliz Dia do Zumbi!
Viva o Dia das Crianças!
Feliz Dia dos Irmãos!
Feliz Dia dos Pais
Feliz Dia do Rock(y)
Dia do Amigo
Homenagem para o Dia das Mães
Para o Dia dos Namorados
Tecnologia para Leigos

*Com valorosas colaborações dos amigos e leitores Isabela Bastos, Cíntia Cardoso, Renata Machado, Aline Calamara, Adriana Reis, Edison Torres, Angela Klinke, Marcelo Cabral, Ney Hayashi e Yan Boechat.

3 comentários:

  1. Amigo Jorge, você é uma lenda viva do jornalismo!

    Beijos da coleguinha
    Dani Muzi

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  2. e o estilo Tadeu schmidt. Aquelas frases curtas que todo jornalista esportivo imita? Assim eh facil

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