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quarta-feira, 17 de julho de 2013

Direito de Resposta: Coxinha solta a franga


"Olá. Eu sou a Coxinha. Isso: 'a' Coxinha. Estou cansada de ver meu nome ser usado por aí, no masculino, como sinônimo de frequentadores de áreas VIPs, com gel no cabelo, que falam 'man' (pronuncia-se 'méin'). Logo eu, que sou do povo, nasci e e vivo no balcão do botequim, virei nome dessa gente que anda pela Vila Olímpia, pela Barra da Tijuca ou por Miami, e agora fica se enrolando em bandeiras do Brasil em passeatas por aí, cantando 'sou brasileiro, com muito orgulho, e muito amooooorrrrr'.

A associação a essas pessoas me deixa queimada. Acho que tudo começou quando o Catupiry começou a dar pinta comigo por. Logo, vieram às críticas ao meu novo estilo, vintage, a Coxa Creme. Foi o suficiente para dizerem que eu tinha ficado meio besta. Nada me deixa mais passada do que chamarem de 'coxinha' salgados com recheio de carne ou vegetarianos. (A propósito, não existe 'coxinha assada'.)

Todo mundo sabe que coxinha de verdade é de frango, não de outras aves tropicais. Enfim, saudade da época em que essas pessoas que usavam camisa para dentro da calça e liam a revista Veja eram chamadas apenas de Mauricinho ou 'almofadinha'. Feliz é a esfiha."

Coxinha entre amigos (Imagem: eatrio.net)

*Inspirado em conversa com os amigos e leitores Rodrigo Bueno e Grasi Drummond.

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sábado, 15 de junho de 2013

Vinagre desabafa

Vinagre em momento família

Para manter a tradição de dar voz a itens da cozinha, este blog, com exclusividade, dá o outro lado da história:

"Todo mundo já deu sua versão sobre os protestos dos últimos dias, mas, até agora, ninguém parou para ouvir o outro lado da história e me dar voz. É, no mínimo, muita ingratidão, depois de tanto piolho, só piolhos, que eu já matei nessa vida. Por isso, vou aproveitar esses meus minutos de fama para falar, depois de ter sido fortemente perseguido e preso pela Polícia Militar de São Paulo. Vida de vinagre não é fácil, é azeda. Muitas vezes, ácida.

Cansei de viver no mato, no meio das folhas, e, agora, quero experiências novas. Eu gosto mesmo é de uma carne. Só os ingleses me entendem, embora eu não goste de peixe ou de batatas. Não bastasse toda uma vida atuando como coadjuvante do azeite, aturando pessoas falando que eu lhes provoco dor de estômago, e, todo o ostracismo no qual eu fui jogado nos últimos anos, devido ao surgimento do aceto balsâmico, agora mais essa: ser acusado de fazer bombas.

É um absurdo, logo comigo, parente mais idoso do vinho. Todo mundo sabe que eu só fui para os protestos pela festa mesmo, para levar umas cafungadas, apenas com o objetivo de levar alegria para as pessoas, evitando que chorem à toa. Nunca fui parte de receita de nenhum coquetel, sou macho, e não me acendo à toa.

Fico ainda mais azedo de pensar na perseguição que é feita aos meus usuários, enquanto os fornecedores continuam por aí, à solta. Por fim, só peço que não me coloquem junto com a pimenta, que trabalha para essa polícia violenta, pois eu tenho ainda uma família de temperos para criar. Pimenta nos olhos dos outros é a PM de São Paulo."

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sexta-feira, 5 de abril de 2013

Direito de Resposta: Tomate, o Injustiçado

Tomate, sensualizando na tábua de corte,
pouco antes de se abrir e mostrar seu interior

"Durante anos, eu vi o chuchu ser apontado como o 'vilão da inflação', o grande culpado pela alta de preços, mas nunca me importei muito. Sabe quando a gente acha que nunca vai acontecer com a gente? Pois é. Mas aconteceu. Agora, os preços estão subindo, e a culpa é de quem? Do tomate! Seu aluguel subiu, e a culpa pela especulação imobiliária é de quem? Do tomate! Daqui a pouco, vão dizer que fui eu que coloquei o Feliciano na Comissão de Direitos Humanos.

Venho por meio desta dizer que fiquei muito comovido com toda a mobilização em torno do valor do meu trabalho nos últimos dias, especialmente depois que uma cantina tradicional de São Paulo decidiu pedir um tempo e interromper, ainda que temporariamente, nosso longo relacionamento, o que foi destaque na mídia fofoqueira e sensacionalista. Chego a ficar vermelho de raiva.

Depois de uma vida aturando perguntas invasivas como 'será que o tomate é fruta?', ou de ser usado para atingir políticos curruptos, tenho que enfrentar uma acusação deste nível. Se acham que podem viver sem mim, tudo bem. Quero ver se o molho branco, ou esses novatos, como o shitake e o alho-poró, dão o mesmo tom (e sabor) que eu dou a um prato. Alguém já viu um molho bolonhesa à base só de cebola? Alguém consegue passar a vida inteira comendo carbonara? (Ok, consegue, mas algum médico permite?)

Acho uma tremenda injustiça, neste Brasil da classe C emergente, em que empregadas domésticas e porteiros estão sumindo porque não querem mais trabalhar por pouco, que só eu não possa ter uma remuneração justa. Será preciso uma PEC do tomate? A verdade é que, se até o chuchu segue uma carreira política invejável, eu também cansei de ser coadjuvante, ficar no fundo da panela, e ser sempre o acompanhamento, o tempero da relação. Quero meu reconhecimento, para não passar a vida chorando e fazendo chorar, como a cebola.

Em pedaços,
Tomate"

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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Nabo revela estar cansado de fingir que é arroz de sushi. Cenoura desabafa: "não sou salmão"

Nabo em momento família, antes de virar comida japonesa
Desde que a comida japonesa foi inventada no Brasil, ele ocupa lugar cativo como coadjuvante nas barcas e bandejas de madeira que servem combinados infinitos de peixe cru na forma de sushi e sashimi. Avesso aos holofotes da mídia, devido a anos (ôpa!) de difamação em trocadilhos sem graça e de conotação sexual, ele aceitou conceder essa entrevista a este blog, especializado em entrevistar vegetais. Com vocês, o nabo.

Por que você resolveu falar?
Nabo: Cansei de viver no ostracismo, sabe? As pessoas só lembram de mim quando o molho shoyu cai na roupa, porque algum desocupado inventou que eu sirvo para chupar aquela poça. Mas ninguém se preocupa se eu tenho problema de pressão alta e se eu posso ficar tomando tanto sódio assim. Além disso, eu odeio molho de soja!

Você tem alguma mágoa?
Nabo: Muitas. Não bastasse eu ter passado a infância sendo vítima de bullying e servindo a trocadilhos infames como "nabo nada não vai dinha?", uma frase que nem faz sentido, agora tenho que passar a vida adulta fingindo que sou arroz. Sushi e sashimi não são comidas light. As pessoas não engordam porque comem muito menos do que acham que veio na bandeja.

Mas isso é uma denúncia muito grave...
Nabo: Pois é. Mas é porque eu frequento as cozinhas dos melhores restaurantes japoneses e sei que, por trás de todo esse papo de que nabo é comida japonesa, eu tenho sido usado cada vez mais para fingir que sou arroz e que tem muito mais sushi do que realmente vem no prato.

E como você descobriu isso?
Nabo: Bem, depois de anos indo para a mesa e voltando para a cozinha sem ninguém nem encostar em mim e, depois, retornando em outros pratos para outras mesas, não foi difícil perceber que eu estou sendo usado para parecer que tem muito mais sushi do que realmente tem na bandeja. Mas quem me abriu os olhos foi a cenoura.

A cenoura?
Nabo: Claro. Porque eles não me mandam mais sozinho para a mesa agora. Eu vou sempre com a cenoura, também ralada, por cima, fingindo que é salmão! Não dá outra: ela também fica indo e voltando pra mesa o dia todo, sem ninguém nem encostar nela. Ou alguém acha que, se o sushi fosse azul, ele também viria acompanhado de tanto nabo e cenoura?

Mas o que você espera agora, falando isso tudo?
Nabo: Reconhecimento. Só eu sei quantos primeiros encontros eu já salvei limpando a roupa do marmanjo que tentava impressionar a gatinha com suas habilidades para comer de pauzinho. Que culpa tenho eu se as pessoas não têm coordenação motora e ainda resolvem sair de roupa branca para comer comida japonesa? A mim mesmo, ninguém come! Ninguém aguenta viver esse desprezo para sempre.

Como você acha que isso começou?
Nabo: É um problema que começou em casa, eu reconheço. É muito difícil crescer numa família sendo comparado o tempo inteiro com a batata, tão versátil e amada pelo mundo todo. Eu sei que eu não tenho o charme dela, sou meio sem sal mesmo. Mas, se pelo menos me respeitassem pelo meu tamanho, como fazem com a mandioca...

*A entrevista, cedida num restaurante japonês no Itaim, teve de ser interrompida porque caiu molho de soja na camisa branca do repórter, que não teve outra opção senão utilizar o entrevistado para poder voltar com a roupa limpa (na verdade, apenas menos suja) para a redação.

Outros posts gastronômicos e entrevistas reveladoras:
Direito de Resposta: Tomate, o Injustiçado
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Des(cons)truindo a cozinha contemporânea
Entrevistamos: Urânio Enriquecido

terça-feira, 29 de maio de 2012

Entrevistamos: Urânio Enriquecido

Urânio, um pouco duro para a foto, gosta mesmo é de arte concretista para investir seus bilhões adquiridos em sua temporada no Irã
É difícil não ser contaminado por este personagem que vem ganhando cada vez mais espaço na mídia. Extremamente reativo, ele diz não entender toda essa polêmica em torno do seu enriquecimento, que, segundo ele, não começou no Irã e é totalmente lícito. "Queria ver se fosse lá em Brasília. A origem do meu enriquecimento é fácil para qualquer criança que cursou o Segundo Grau entender", diz o Urânio Enriquecido, em uma de suas muitas frases e reações de efeito. Leia, a seguir, essa entrevista explosiva.

Como começou essa polêmica toda?
Urânio Enriquecido: Acho que tudo isso foi só porque eu fui me aposentar e viver no Irã. Parece inveja, despeito. Em Brasília, está cheio de gente enriquecendo de formas inexplicáveis e ninguém fala nada. É importante dizer que eu não comecei a enriquecer agora e tudo o que eu ganhei foi com o meu trabalho.

Você se considera injustiçado?
Urânio: Claro. No Brasil, vocês têm o Eike Batista, que ninguém sabe direito o que faz da vida ou como ele enriqueceu, e ninguém fica alugando o cara. Já eu... E olha que eu produzo alguma coisa, energia, pelo menos.

Você sempre se sentiu perseguido?
Urânio: Na época da Guerra Fria, a coisa era pior. Mas eu estou acostumado. Na escola, eu sofria bullying porque muita gente não conseguia falar direito meu nome e eu era chamado de Urano, o mesmo nome daquele planetinha de sétima categoria que o povo nem tem certeza se existe mesmo.

Mas como você enriqueceu afinal?
Urânio: Nos anos 1980, graças a Hollywood. Eu participei de quase todos filmes que falavam de energia nuclear. Cheguei a ser sondado para o primeiro De Volta para o Futuro, mas eram tantas propostas, que acabei deixando a oportunidade para o Plutônio, garoto esforçado, que começou uma brilhante carreira ali.

Esse seu temperamento não te atrapalha?
Urânio: Olha, eu sou meio explosivo, mas só quando me provocam. Se eu entrar em atrito, posso fazer um estrago enorme, mas, no mais, gosto de ficar na minha, quietão, jogado lá na natureza. São os outros que mexem comigo e, depois, reclamam.

Quem? Os iranianos?
Urânio: Essa fixação toda é dos americanos, que não me esquecem. Mal sabem eles que o que eu queria mesmo era morar em Goiânia, onde um tio meu viveu nos anos 1980 e parece que foi muito bem recebido, com festa e tudo, mas ele andou fazendo algum estrago por lá e meu visto foi negado.

A que você atribui sua fama?
Urânio: Ah, sem dúvida, meu lançamento e meu sucesso mais estrondoso foram mesmo em Hiroshima, onde me joguei numa carreira que tinha de tudo para ser meteórica, mas estou aí até hoje. Muita gente só ouviu falar de mim agora, mas eu estou nos livros de história já. A grande injustiça é dizer que eu faço mal às pessoas, mas quem me provoca são os outros. Depois, eu explodo e o pessoal reclama.

Você pretende voltar ao cinema?
Urânio: Eu ando meio esquecido pela indústria cinematográfica. Mais recentemente, me candidatei para participar do Homem de Ferro, para fazer uma ponta na engenhoca do coração dele, mas preferiram inventar um novo elemento químico, para não precisar pagar royalties. Em Os Vingadores, aparece um primo meu, o Irídio, e de ele enriquecer, ninguém reclamou. É muita injustiça.

Outras entrevistas exclusivas:
Alho-poró, o novo tomate seco

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Entrevista com: alho-poró, o novo tomate seco

Alho-poró em momento descontraído, soltinho
O tomate seco já não é mais o mesmo. Primeiro, foi a rúcula que o abandonou para seguir carreira solo. Agora, é o alho-poró que rouba o seu lugar. Nessa entrevista exclusiva, o alho-poró fala da responsabilidade de substituir a iguaria amiga em todo e qualquer prato, e conta o segredo do seu sucesso.

Você pretende substituir o tomate seco?
Alho-poró: A carreira do tomate seco começou a degringolar quando ele começou a aceitar de tudo. O sucesso dele começou na pizza de rúcula, mussarela de búfala e tomate seco. Nos últimos tempos, eu vi o tomate seco se afundando até em vodka.

Mas você pretende se unir a quem?
Alho-poró: As revistas de fofoca, como Receita Minuto e Faça Fácil Cozinha, e aquela fofoqueira da Ana Maria Braga já deram que eu ando saindo com a quiche e com o risoto. Meu limite é a pizza. Eu acho que a pizza é o fim da carreira de qualquer verdura.

Quais foram os erros do tomate seco?
Alho-poró: O primeiro erro do tomate seco foi essa associação com a mussarela de búfala. Depois de um tempo, todo mundo percebeu que nunca havia visto uma búfala na vida. Muito menos em Minas Gerais. Foi uma grande sacanagem com o queijo minas, eu acho, transformá-lo em bolinha e dizer que a mãe dele era outra.

Como você explica a sua fama repentina?
Alho-poró: Eu sempre estive por aí, disponível nas feiras e gôndolas de hortifrutigranjeiros. Esse meu primeiro nome, Alho, sempre fez muita gente fugir de mim. O frango grelhado dos restaurantes a quilo não seria nada sem mim.

O tomate seco diz que muito do teu sucesso hoje se deve a ele...
Alho-poró: A história, o povo e o Alex Atala vão me redimir. Não foi porque eu e o tomate seco fizemos dupla em algumas receitas de massas e tortas que eu ficaria dependente dele. O tomate seco precisou carregar aquela encostada da rúcula, e ser "tomate seco" para fazer sucesso.

Como você reage aos comentários de que, na verdade, você é uma cebola?
Alho-poró: Nunca dei motivos para duvidarem da minha sexualidade. Eu estou muito mais para alho do que para cebola. Esse mundo da cozinha é cheio de panelinhas, é preciso tomar cuidado, porque, quando você menos espera, vem alguém e te frita.

Você considera sua carreira consolidada?
Alho-poró: É só olhar qualquer bufê a quilo por aí. A ascensão da classe C fez heróis e vítimas. Depois que o tomate seco entrou no cardápio da Parmê no Rio e do Bon Grillé em São Paulo, a carreira dele acabou.

Algum último recado para o tomate seco?
Alho-poró: De seco, o tomate seco não tem nada. Não dá para disfarçar aquela gordura, aquele azeite todo. Se ele não quiser se aposentar de vez, vai acabar a carreira no Mc Donald's. Ou no Giraffas.

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