segunda-feira, 29 de outubro de 2012

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Vírgula pergunta: Salve Jorge do quê?

Minha sugestão de logotipo para a novela. (Alô, Hans Donner! Olha eu aqui!)
Olá. Eu sou a vírgula.

Sei que ando meio desaparecida, especialmente em tempos de redes sociais, em que ninguém me oferece uma oportunidade. Desde a minha última carta, muita coisa aconteceu e decidi que era hora de me manifestar, antes que eu caia de vez no esquecimento.

Quem acompanha minha carreira sabe que eu e os vocativos sempre andamos juntos. Quer dizer, eu sempre o separando do resto da frase. Agora, me vem essa novela, "Salve Jorge", que não diz de que ameaça o tal do Jorge deve ser salvo (só espero que não seja de mim). Deve ser do mau uso da língua portuguesa mesmo. Pois, se fosse para louvar alguém, a minha presença seria indispensável. Tudo bem, eu sei que eu não ajudo a salvar ninguém.

Cheguei até a pensar se não se tratava de uma continuação da novela anterior, ou de uma tentativa de pegar carona no seu sucesso, já que o enredo seria semelhante: salvar Jorge (tanto o Tufão quanto o Jorginho) das garras de Carminha.

Ok, com todo respeito aos santos e galãs envolvidos, salvem o Jorge, mas não esqueçam da vírgula (adoro falar na terceira pessoa). Afinal, se meu uso fosse mesmo dispensável, torcedores bradariam "chupa Palmeiras" e "chupa Corinthians", o que tornaria a missão do ofendido bem mais difícil. Não me deixem só!

Cordialmente,
Vírgula

Mais sobre agressões à língua portuguesa:
Dicionário Rio x São Paulo de Gírias e Afins
Vida de aspas é difícil
Carta da vírgula na era da exclamação
Reforma Hortográfica e a Nova Dramática Brasileira
Publicidade desserviço(ou: As piores estratégias de marketing)
Dicionário Rio x São Paulo de Gírias e Afins

*Baseado em excelente sugestão do leitor Marcelo Medeiros.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Nabo revela estar cansado de fingir que é arroz de sushi. Cenoura desabafa: "não sou salmão"

Nabo em momento família, antes de virar comida japonesa
Desde que a comida japonesa foi inventada no Brasil, ele ocupa lugar cativo como coadjuvante nas barcas e bandejas de madeira que servem combinados infinitos de peixe cru na forma de sushi e sashimi. Avesso aos holofotes da mídia, devido a anos (ôpa!) de difamação em trocadilhos sem graça e de conotação sexual, ele aceitou conceder essa entrevista a este blog, especializado em entrevistar vegetais. Com vocês, o nabo.

Por que você resolveu falar?
Nabo: Cansei de viver no ostracismo, sabe? As pessoas só lembram de mim quando o molho shoyu cai na roupa, porque algum desocupado inventou que eu sirvo para chupar aquela poça. Mas ninguém se preocupa se eu tenho problema de pressão alta e se eu posso ficar tomando tanto sódio assim. Além disso, eu odeio molho de soja!

Você tem alguma mágoa?
Nabo: Muitas. Não bastasse eu ter passado a infância sendo vítima de bullying e servindo a trocadilhos infames como "nabo nada não vai dinha?", uma frase que nem faz sentido, agora tenho que passar a vida adulta fingindo que sou arroz. Sushi e sashimi não são comidas light. As pessoas não engordam porque comem muito menos do que acham que veio na bandeja.

Mas isso é uma denúncia muito grave...
Nabo: Pois é. Mas é porque eu frequento as cozinhas dos melhores restaurantes japoneses e sei que, por trás de todo esse papo de que nabo é comida japonesa, eu tenho sido usado cada vez mais para fingir que sou arroz e que tem muito mais sushi do que realmente vem no prato.

E como você descobriu isso?
Nabo: Bem, depois de anos indo para a mesa e voltando para a cozinha sem ninguém nem encostar em mim e, depois, retornando em outros pratos para outras mesas, não foi difícil perceber que eu estou sendo usado para parecer que tem muito mais sushi do que realmente tem na bandeja. Mas quem me abriu os olhos foi a cenoura.

A cenoura?
Nabo: Claro. Porque eles não me mandam mais sozinho para a mesa agora. Eu vou sempre com a cenoura, também ralada, por cima, fingindo que é salmão! Não dá outra: ela também fica indo e voltando pra mesa o dia todo, sem ninguém nem encostar nela. Ou alguém acha que, se o sushi fosse azul, ele também viria acompanhado de tanto nabo e cenoura?

Mas o que você espera agora, falando isso tudo?
Nabo: Reconhecimento. Só eu sei quantos primeiros encontros eu já salvei limpando a roupa do marmanjo que tentava impressionar a gatinha com suas habilidades para comer de pauzinho. Que culpa tenho eu se as pessoas não têm coordenação motora e ainda resolvem sair de roupa branca para comer comida japonesa? A mim mesmo, ninguém come! Ninguém aguenta viver esse desprezo para sempre.

Como você acha que isso começou?
Nabo: É um problema que começou em casa, eu reconheço. É muito difícil crescer numa família sendo comparado o tempo inteiro com a batata, tão versátil e amada pelo mundo todo. Eu sei que eu não tenho o charme dela, sou meio sem sal mesmo. Mas, se pelo menos me respeitassem pelo meu tamanho, como fazem com a mandioca...

*A entrevista, cedida num restaurante japonês no Itaim, teve de ser interrompida porque caiu molho de soja na camisa branca do repórter, que não teve outra opção senão utilizar o entrevistado para poder voltar com a roupa limpa (na verdade, apenas menos suja) para a redação.

Outros posts gastronômicos e entrevistas reveladoras:
Direito de Resposta: Tomate, o Injustiçado
Entrevista com: alho-poró, o novo tomate seco
Des(cons)truindo a cozinha contemporânea
Entrevistamos: Urânio Enriquecido